Parecia que os dias me atropelavam

Parecia que os dias me atropelavam. Eles se repetiam sem dar espaço para eu refletir sobre o que estava acontecendo.

Toca o despertador, acordo as crianças, arrumo tudo, mando-as para escola. Me apronto rapidamente, vou pro trabalho.

Não há necessidade de retomar os problemas, pois eles ficaram comigo durante a noite mal dormida.

Planejo o dia, mas não importa tanto pois os maiores problemas em andamento ocupam grande parte do dia e da minha atenção.

Ouço algumas pessoas conversando sobre cenas quotidianas e não consigo achar graça nenhuma. Alegria mesmo só quando percebo que de alguma forma consegui ajudar outra pessoa a se desenvolver ou superar algum obstáculo. Mas frente aos assuntos administrativos, só consigo ver perda de tempo.

Almoço rápido. Compro presente para o amigo de escola da filha. Dia cheio, tarefas cumpridas. Hora de ir para casa. Ah não, me esqueci de emitir a passagem para o dia seguinte. Agora sim, hora de ir.

Num súbito repentino lembro que era o dia de pegar a caçula na escola pois iria receber a lembrancinha do dia das mães! Puxa, como pude esquecer? Se eu correr muito dá tempo.

Chego na escola esbaforida, suada e vejo minha pequena encostadinha na parede com um coração de braços abertos pendurado no pescoço. Ela era a última da turma esperando a mãe. Ainda me aperta o coração imaginar seus olhinhos compridos olhando cada mãe que chegava esperando que fosse a sua. Uma generosa mãe de uma amiguinha ficou esperando com ela, para distraí-la. Acabou dando tudo certo, por sorte. Exceto pelo fato de que reforço a ideia de que não estou priorizando as coisas certas. Se meu anjo da guarda não me cutucasse, não quero nem imaginar.

Chego em casa, hora de jantar e brincar com as crianças. Faço bilhete para a ajudante pedir o hortifruti. Olho a agenda das meninas. Jogo baralho com as crianças. Mente divagando. Sou interrompida pela filha mais velha:

— Mãe! Mãããããeeee! Onde você está hein? Ainda no trabalho?

Leitura com as crianças na hora de dormir. Este era um momento de prazer!

Novamente a filha mais velha:

— Mãe, por que você está com esta cara?

— Que cara filha?

— Assim esquisita, triste ou brava, não sei…

— Mamãe está cansada filha.

— Fala o que foi. Insistia ela.

Falei o que me veio a cabeça:

—  Sabe o que é? Mamãe vendeu um programa de computador para um cliente e está muito lento.

— Xiiiii, não funciona?

— Funciona. Mas está lento e o cliente está reclamando.

— Que vergonha mãe!

— Hahahaha!

Agora minha filha arrancou de mim um sorriso de verdade! Continuei:

— Informática é assim filha, às vezes acontecem erros no programa e temos de consertar.

— E por que não consertam? Foi você que fez?

— Tem uma área diferente que conserta e outra diferente que descobre o que está errado no programa no computador do cliente.

— O cliente reclama com você?

— Sim, reclama com o funcionário da mamãe que me pede ajuda e a mamãe tem de falar com estas áreas para fazê-los andar logo!

— Nossa que complicado! Manda então o cliente falar direto com quem conserta!

— Obrigada filha! Já ajudou a mamãe. Vamos dormir agora.

— Ah você fez o dever?

— Fiz sim!

Finalmente, hora de ir para cama.

— Oi marido!

— E aí tudo bem? Ele pergunta.

— Tudo. Só cansada. Boa noite.

Toca o despertador às 5:30h. Pronta em meia hora. Serviço de taxi avisa que não tem veículo disponível. Corro para rua mais movimentada em busca do taxi. Chego a tempo do vôo. Tudo no automático. Nada de bijoux ou cinto para não atrapalhar o embarque. Sorte, vôo não atrasa. Fila gigante do taxi em Congonhas. Engarrafamento tão cedo. Dia cheio. Respiração curta. Suspiros profundos para tentar relaxar.

Seguindo o conselho da filha de 7 anos, articulei a vinda do gringo para ir visitar o cliente. Temporal no fim do dia. Aeroporto fecha. Chego em casa às 22:30h. Todos dormem. Ligo a TV, dou uma olhada rápida na internet. Noticias de corrupção, crimes, etc dominam as páginas. Observo uma dor no peito, um pouco de taquicardia. Não deve ser nada. Respiro fundo e durmo.

E tudo se repete sem espaço para pensar, apreciar, sentir ou se divertir.

Sonho novamente com o avião desgovernado. No dia seguinte uma querida amiga diz:

— Pense o que é o avião para você?

Chego enfim a uma conclusão: definitivamente não é a vida que quero ter. Minhas filhas, meu marido e eu mesma mereço muito mais do que estou conseguindo proporcionar.

O que há de errado?

Por que passei a ver problemas como problemas e não oportunidades? Por que uma viagem deixou de ser um prazer para virar um martírio? Por que trabalho tanto? Talvez para dar um bom futuro para as minhas filhas. Mas o que é um bom futuro para elas? Estudar numa boa escola e mal ver a mãe?

Por alguns motivos me distanciei de mim mesma, deixei de me questionar sobre o que era realmente importante. Apenas executei, primava pelo resultado, pelas relações com o outro, pelo desenvolvimento dos outros e me esqueci de mim mesma.

Somente quando começou a afetar a minha família eu me dei conta de que precisava de-sa-ce-le-rar.

Resolvo então tirar uma licença de um ano do trabalho iniciando em 2013 para tentar oferecer mais qualidade do meu tempo para a família e repensar o futuro. Sem o trabalho, tudo vai se resolver! Será?

Continua no próximo post